Velhos segredos de morte e pecados sem perdão

Março 2014

Existe um ponto de Velhos Segredos em que todo Leitor se pergunta desconfiado: como é que ele vai resolver isso. Assumo de pronto que o questionamento nunca é para o narrador perturbado e cheio de defeitos que se apaixona pela garota mais bonita (e interessante) da cidade. A pergunta (quase uma acusação receosa de que o autor jamais conseguirá fechar tantas pontas soltas numa história tão complexa) é direcionada a mim.

Jamais corro dela. E entendo o receio de quem chega a dois terços do livro e tem essa desconfiança. Eu não tive – espero que isso não pareça uma zombaria ou que seja confundido com falta de humildade literária... se é que isso existe.

De modo que preciso dividir isso com você.

Velhos Segredos correu o risco de jamais existir e entendo de verdade que isso teria sido um crime. Teria sido o assassinato de Isabel antes mesmo de ela ter um nome, embora já existisse e já estivesse deitada naquela cama – a que o narrador quase depressivo descreve no primeiro capítulo.

Comecei a escrever Velhos Segredos muito tempo antes de saber do que a história se tratava. Nasceu ali nas primeiras páginas em que o "Valete" das Três Famílias passa a noite em claro observando a chuva fina e o faz remoendo seus remorsos e suas angústias. Lá atrás, deitada em sua cama, uma mulher ressona. Terminado o capítulo, ou conto, ou... fosse lá o que fosse aquilo (porque apenas escrevi e não tinha ideia do porquê), guardei num canto dos arquivos aquela cena sem futuro ou passado.

Cerca de dois anos depois de ter escrito as primeiras páginas, comecei a rever alguns textos que havia começado e que não tinham seguido adiante. Esbarrei com várias ideias que ainda guardo como sensacionais no baú desorganizado que são minhas anotações. De enredos policiais a horrores vampirísticos, acho que bisbilhotei pelo menos uns dez textos até esbarrar naquele, até me encontrar de novo com Isabel. O arquivo, tanto quanto ela, não tinha nome, título, ou uma ideia definida. Era uma cena. Mas quando reli... apaixonei-me pela mulher em silêncio e ainda sem rosto na cama. Era como se Isabel fosse de alguma maneira tão forte que, mesmo em silêncio e escondida nas linhas e entrelinhas, tivesse poder para me seduzir.

Embora contato em primeira pessoa, é essencial que cada Leitor tenha em mente isso: Isabel é o que importa. Ela é o motivo de tudo e mesmo as negativas iniciais do Valete de se distanciar, de minimizar seu relacionamento com ela são... pobres. É só prestar meia atenção e você vai perceber que ele está perdido desde o início.

Dito isso, quero também que saiba: não foi mesmo fácil escrever Velhos Segredos, mas segui adiante tendo em mente que ali estava uma personagem pela qual valia a penas destruir crenças, assassinar alcoviteiros e destronar reis. Não, se você não leu, não ache que vai encontrar um rei aqui. No muito um coronel reformado e com gostos sexuais... duvidosos.

Velhos Segredos é sim um romance policial com um pé no noir do cinema de Humphrey Bogart; corre atrás de investigar assassinatos e traições e velhas lendas de uma cidadezinha provinciana e cheia de seus preconceitos de estimação; e também coloca um pezinho no sobrenatural nunca revelado ou dito às claras. Mas acima de qualquer ideia que se possa ter de Arroio dos Perdidos – ou de seus habitantes aparentemente pacatos – é essencial e necessário que se entenda: o que importa é Isabel!

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Leia ou releia quantas vezes quiser e, de pronto, aceito que me indiquem linhas soltas da trama. Se a encontrar... bem... faço uma promessa: coloco você para morrer num próximo livro.





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