Os meninos que me ensinaram a ler

Outubro 2015

Aprendi a gostar de histórias com uma senhora baixinha e ranzinza que passava as tardes entre a mesa de madeira da cozinha e uma velha Singer barulhenta no quartinho de costura; esticando os doces que passava horas mexendo com uma colher de pau e muito esforço no fogão de quatro bocas ou costurando tapetes e colchas de retalhos naquela máquina antiga, escura. Eram sempre as mesmas histórias, mas eu não me cansava delas. E quando minha avó terminava uma, eu já sabia qual seria a próxima... Ela reclamava um pouco por ficar sempre repetindo o anedotário para o incansável moleque de seu filho mais velho, mas passava de um causo a outro com a desenvoltura dos melhores contadores de histórias.

Minha segunda lembrança é de minha mãe deitada no sofá da sala pequena de nossa casa (vizinha à dos meus avós) com um estranho pacote feito de folhas nas mãos. Ela vivia entretida e mergulhada neles. Eram uns caderno que não tinham folhas em branco para desenhar, porque já vinham com... coisas impressas neles. Eram letras. Dezenas delas. Centenas. Milhares! E ela ficava lá, por horas, passando páginas e devorando palavras.

Não levou muito tempo para eu perceber que a mágica que me fascinava nas histórias que minha avó contava... essa magia fantástica estava dentro daqueles pacotes que tiravam minha mãe do mundo real e a levavam por minutos seguidos ao sofá da sala – sua mente vagando por outros mundos desconhecidos, aventurescos, fantásticos!

Aqueles pacotes eram... LIVROS! E todas as histórias do mundo cabiam neles!

Acho que aprendi a ler na segunda série, mas não me recordo de quando foi que me aventurei a... tentar vencer um livro! Eles eram quase inalcançáveis para quem ainda juntava letras e tentava acompanhar um gibi do Aranha inteiro. Mas um dia os meninos da turma receberam a incumbência de lutar naquela primeira batalha. As meninas tinham sua tarefa, mas eu jamais vou me lembrar de qual era. Quanto à nossa...

Os meninos da rua Paulo

Minha mãe comprou aquele exemplar até pequeno (visto hoje, guardado ali entre os enormes volumes da estante) de Os Meninos da Rua Paulo e eu o achei enoooorme! Tínhamos que ler nas férias. E eu achava que levaria um ano inteiro para conseguir terminar. Ledo engano.

Mergulhado nas aventuras e dramas dos garotos pobres da Hungria, inseridos num contexto histórico que fascina e apavora as crianças com a guerra, com o descaso e abandono dos adultos, caí de joelhos diante do meu primeiro grande herói juvenil, o bravo e trágico Ernesto Nemecsek. Publicado originalmente em 1907, escrito pelo jornalista Ferenc Molnár, ainda guardo na estante o velho exemplar traduzido por Paulo Rónai (pai da jornalista Cora Rónai), comprado por minha mãe e que tanto me assustou e fascinou há mais de trinta anos.

O final trágico e belo encontra eco em obras recentes que tratam de assuntos semelhantes (o sacrifício da inocência infantil diante da barbárie e da insensibilidade do mundo adulto, das guerras adultas, da miséria humana...), mas nenhum livro, jamais, conseguiu ser como Os Meninos da Rua Paulo. Não para mim: foi minha iniciação à mágica das histórias contadas por minha avó e lidas em silêncio por minha mãe. Foi quando tomei consciência de que aquela paixão era para sempre e que eu queria mais do que ser apenas o espectador dos ilusionistas no palco.

Os Meninos da Rua Paulo me fizeram um apaixonado pelo ofício!





Livros