007 Contra o Satânico Dr. No

Novembro 2016

 Admiro a sua sorte, Sr...

- O meu nome é Bond, James Bond.

James Bond já era um personagem de sucesso na literatura quando Sean Connery respondeu seu nome pela primeira vez em 1962, dez anos depois que Sir Ian Lancaster Fleming escrever seu Casino Royale (a primeira aventura de Bond) e o agente secreto do MI6 britânico se tornar um ícone da cultura pop moderna.

Ian Fleming inspirou-se em seus anos trabalhando na divisão de inteligência naval britânica e nos anos como jornalista durante a segunda grande guerra para criar um pano de fundo cheio de ação e perigos para seu agente secreto, incrementando-o com um charme e elegância aristocráticas incomuns, um traço magnético que o colocava não apenas fisicamente acima de seus oponentes inescrupulosos, mas também como um ser humano superior, irresistível, inteligente e dotado de um fino humor britânico requintado – seus trejeitos e sotaque poshed vinham claramente do berço endinheirado de seu criador, de família rica, ligados a bancos mercantes e até ao parlamento inglês.

Nove anos se passaram desde o lançamento do primeiro livro para que o mundo pudesse ver James Bond em carne e osso, tiradas elegantemente cínicas e rodeado de mulheres espetaculares: o que o tornou um ícone machista com o tempo – mas um irresistível ícone coberto de charme e brutalidade.

Harry Saltzman, então vice-presidente da United Artists, uniuse a Albert Brocolli e criaram juntos uma produtora em busca dos direitos cinematográficos do agente 007. E outra que pudesse fazer caixa e bancar uma aventura à altura dos livros de Ian Fleming – não foi fácil. Em 1961, quando o livro Thunderball foi lançado (o nono romance de James Bond), ninguém acreditava muito que se poderia levar o herói para as telas num filme decente.

O próprio Ian Fleming já havia tentado criar uma história para o cinema com Kevin McGlory (que havia produzido a versão de 1956 com David Niven de Volta ao Mundo em 80 Dias e tornaria a produzir Bond com o roteirista Jack Whittingham em Chantagem Atômica, de 1965, e no apócrifo Nunca Mais Outra Vez, de 1983), mas empreitada não foi pra frente porque o autor vivia dando pitacos e revelando ao público suas ideias para o que acreditava ser um filme perfeito chamado James Bond, Agente Secreto. As ideias para essa história é que acabaram virando o livro Thunderball.

Saltzman e Brocolly iniciaram a produção com pouco dinheiro e algumas divergências de opinião até com o criador do agente secreto. Escolheram uma história que consideravam mais fácil de produzir (mais barata, por ter praticamente uma locação apenas: a Jamaica), convidaram o diretor Terence Young para comandar o set e partiram atrás de um ator que personificação aquilo que Ian Fleming descrevera em seus livros.

A ideia dos dois produtores era, desde o início, iniciar uma série de filmes de James Bond que tivessem como modelo o que Alfred Hitchcock havia feito com seu Intriga Internacional, de 1959, com Cary Grant sendo jogado num mundo vertiginoso de espionagem e situações perigosas constantes. O próprio Cary Grant foi sondado para o papel, mas não queria embarcar numa série e já estava meio velho para o papel. James Mason (que foi o vilão de Intriga Internacional) também foi sondado e toparia até dois filmes, no máximo. Uma série de outros atores recusaram ou foram descartados ao longo do processo, como Steve Reeves (conhecido por filmes de Hércules e outros épicos e filmes mitológicos europeus de segunda categoria da época), Trevor Howard , Rex Harrison , Stewart Granger , Richard Johnson , William Franklyn , Richard Todd , Stanley Baker , Ian Hendry e Richard Burton!

A escolha de Ian Fleming sempre foi por Roger Moore, que naquele mesmo ano estrelava The Saint e estava fora do páreo. E então apareceu aquele ator desconhecido, escocês, de origem na classe trabalhadora: Sean Connery. Tinha por volta dos 32 e Ian Fleming quase teve uma ataque. Mesmo assim, Albert Brocolly e Harry Saltzman bancaram o aperfeiçoamento de Connery como indivíduo de alta classe, elegante e ao mesmo tempo: bruto – característica que ele já trazia como marcante.

Ian Fleming e Sean Connery

A cena em que James Bond aparece pela primeira vez, numa rodada de Bacará no cassino, dizendo seu nome e mostrando toda a sua elegante e indestrutível autoestima talvez tenha sido a mais marcante de seus filmes. E aquela que dobrou Sir Ian Fleming para o ator que seguramente será lembrado eternamente como o James Bond perfeito (ainda que tecnicamente estivesse abaixo do próprio Roger Moore – que assumia a série anos depois, e que os primeiros filmes hoje sofram da velhice caricata dos anos 1960). Quando escreveu o livro A Serviço Secreto de Sua Majestade (lançado em 1963 e levado aos cinemas em 1969 com o horrível e descartável George Lazemby), o escritor incluiu para o personagem uma ascendência escocesa inédita e reverenciosa.

Na cena do cassino ele flerta com a jogadora oponente – a atriz Eunice Gayson, que fora escalada como Moneypenny originalmente, mas acabou interpretando a sensual Sylvia Trench, a primeira bondgirl a ir para a cama com o agente em um filme e apareceria na produção seguinte – desfila elegância e charme, atende ao chamado do MI6 e em momento algum – e em nenhum outro do filme – percebemos que Sean Connery estava careca e usava apliques o tempo todo – inclusive um especial quando tem que se molhar bastante nos dutos da ilha do Dr. No, mais perto do fim.

Outra frustração de Ian Fleming foi a escalação de Joseph Wiseman com o Dr. No – um cientista ligado à tenebrosa organização Spectre que quer acabar com o programa espacial americano. Fleming queria Christopher Lee para o papel e, sinceramente, é uma chateação olhar a maquiagem do vilão tentando fazê-lo parecer ter alguma descendência chinesa.

Como história, infelizmente, Dr. No não é grande coisa. Nem o filme se salva tanto assim: é lento, algo burocrático e sofre de parecer um rascunho do que a série seria um dia. Produtores, diretor e ator ainda procuravam seu equilíbrio, o tom correto, a maneira de dizer ao mundo: ei, este aqui é um filme de James Bond.

Mesmo assim, a mágica está ali. A bondgirl vivida por Ursula Andress tornou-se um ícone tão forte quanto a própria franquia. A cena em que sai da água ainda é um desses achados do cinema que marcam a mente de qualquer pessoa para sempre. Tanto que Halle Berry vestiu um modelito parecido quando protagonizou Um Novo Dia Para Morrer com Pierce Brosnan em 2002. O biquíni original acabou leiloado por Ursula Andress em 2001 por 35.000 libras esterlina.

Ursula Andress

Dr. No leva James Bond à Jamaica para investigar o desaparecimento de um agente local e sua secretária. Descobre que o colega e um barqueiro local estavam coletando amostras de solo e pedras nas ilhas vizinhas. Esbarra pela primeira vez no agente americano Felix Leiter (vivido aqui pelo ator Jack Lord, que queria salário igual ao de Sean Connery e acabou descartado nos filmes seguintes), invade a ilha do Dr. No, foge e é capturado por seus capangas, junto com a Honey Rider de Ursula Andress e acaba destruindo o complexo do vilão.

É um marco na história de uma das séries de maior sucesso de todos os tempos – sem contar a longevidade. E um marco do cinema e uma obra prima completa, com a marcante e inesquecível trilha composta por Monty Norman e arranjada por John Barry. O tema de James Bond ficou nas paradas de sucesso da época por semanas e ainda hoje causa impacto quando um filme novo começa e vemos a cena inicial se abrir com a perspectiva da arma e o agente atingindo seu oponente em seguida – nos primeiros filmes, não era Sean Connery na montagem da abertura.

Enfim, Dr. No é como uma primeira vez de que lembramos com carinho, embora fiquemos pensando que isto ou aquilo poderia ter sido melhor. Mas foi o melhor início que se poderia imaginar.





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