Os meninos que me ensinaram a ler

Os meninos da rua paulo, de Ferenc Molnár

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Sobre Novembro de 63, de Stephen King

Sobre Novembro de 63, de Stephen King
Outubro 2015

Novembro de 63 (11/22/63)
Stephen King

O último bom livro de Stephen King que eu havia lido foi Saco de Ossos, de 1998. De lá para cá, entre uma e outra coletânea de contos (alguns ótimos, outros escritos para passar o tempo, como ele mesmo descreve num prefácio), li alguns romances forçados como Celular e Buick 8, além do razoável Love, de 2008 - razoável pra baixo, porque a história é meio chatinha).

Mas aí está uma agradabilíssima surpresa (porque achei que o cara já não se importava tanto assim com uma boa história), dessas que você se agarra na primeira página e só larga na última. Novembro de 63 é isso.

E é perfeito!

Além da ótima história, Stephen King a conta com uma leveza e poder deliciosos. O texto, contado em primeira pessoa, flui com uma suavidade viciante. E passa por momentos (muitos) de tensão e (mais ainda) emoção que surpreendem e te prende como só vi em obras primas como O Iluminado, A Coisa, Cemitério, A Hora do Vampiro e A Dança da Morte.

Resumir Novembro de 63 é um desserviço à leitura, mas se procurar por aí, o que você vai encontrar é mais ou menos: Jake Epping, um professor de inglês de 35 anos, volta a 1958 por uma "toca de coelho" (alusões a Alice, no nome dado à inusitada passagem, claro) com uma missão: impedir que Lee Harvey Oswald mate John Kennedy.

Só isso? A desculpa talvez fosse essa, como o próprio autor revela no posfácio do livro. Stephen King conta que pensou em escrever essa história em 1972, mas achou que não teria como bancar as pesquisas que ela demandava. Ele mesmo se diz grato por isso e devo concordar com ele que jamais poderia tê-la escrito antes de A Coisa e os eventos que contou da cidade de Derry naquele livro de 1985. Quem leu A Coisa certamente vai se
deliciar com a passagem onde Beverly Marsh e Richie Tozier, membros remanescentes do Clube dos Perdedores, encontram-se com George Amberson (alterego de Epping no passado) no meio da Colina Milha Acima, na assombrada Derry do fim de 1958.

A passagem é arrepiante para quem leu A Coisa e concordou com a chamada na capa que dizia ser aquela a Obra Prima do Terror.

Novembro de 63 é leitura recomendadíssima pela reconstrução de época (dá para VER os cenários e o Mundo de Antigamente nas narrações e descrições de Epping - ato falho: de Stephen King) e pelo enredo milimetricamente construído. Até as idas e vindas no tempo são cheias de surpresas e aguardadas com suspense e ansiedade.
LEIAM!

Um acréscimo:

Em 2015 foi anunciada uma minissérie para a tevê produzida por J.J. Abrams (se você não ligou o nome à pessoa, o sujeito foi responsável por séries fantásticas como Lost e Fringe, além de ter dirigido os dois primeiros e novos Jornada nas Estrelas e o retorno de Star Wars: O Despertar da Força aos cinemas) e neste exato momento (março de 2016, enquanto enxerto esse trecho no texto original do blog) ela está no ar, lá pelas bandas do Tio Sam.

Tem James Franco como Epping e o próprio Stephen King como produtor executido. Embora a história tenha algumas boas diferenças em relação ao livro, é uma produção fantástica, impecável do ponto vista técnico e de atuação.

Com 9 episódios programados, 11/22/63 (nome original do livro e da minissérie) pode até se tornar uma série com outras temporadas, segundo os produtores, mas torço de verdade para que não seja feito com o assassinato de JFK o que fizeram com Under the Dome.

Livros



Velhos segredos de morte e pecados sem perdão

Velhos segredos de morte e pecados sem perdão
Outubro 2015

Existe um ponto de Velhos Segredos em que todo Leitor se pergunta desconfiado: como é que ele vai resolver isso. Assumo de pronto que o questionamento nunca é para o narrador perturbado e cheio de defeitos que se apaixona pela garota mais bonita (e interessante) da cidade. A pergunta (quase uma acusação receosa de que o autor jamais conseguirá fechar tantas pontas soltas numa história tão complexa) é direcionada a mim.

Jamais corro dela. E entendo o receio de quem chega a dois terços do livro e tem essa desconfiança. Eu não tive – espero que isso não pareça uma zombaria ou que seja confundido com falta de humildade literária... se é que isso existe.

De modo que preciso dividir isso com você.

Velhos Segredos correu o risco de jamais existir e entendo de verdade que isso teria sido um crime. Teria sido o assassinato de Isabel antes mesmo de ela ter um nome, embora já existisse e já estivesse deitada naquela cama – a que o narrador quase depressivo descreve no primeiro capítulo.

Comecei a escrever Velhos Segredos muito tempo antes de saber do que a história se tratava. Nasceu ali nas primeiras páginas em que o "Valete" das Três Famílias passa a noite em claro observando a chuva fina e o faz remoendo seus remorsos e suas angústias. Lá atrás, deitada em sua cama, uma mulher ressona. Terminado o capítulo, ou conto, ou... fosse lá o que fosse aquilo (porque apenas escrevi e não tinha ideia do porquê), guardei num canto dos arquivos aquela cena sem futuro ou passado.

Cerca de dois anos depois de ter escrito as primeiras páginas, comecei a rever alguns textos que havia começado e que não tinham seguido adiante. Esbarrei com várias ideias que ainda guardo como sensacionais no baú desorganizado que são minhas anotações. De enredos policiais a horrores vampirísticos, acho que bisbilhotei pelo menos uns dez textos até esbarrar naquele, até me encontrar de novo com Isabel. O arquivo, tanto quanto ela, não tinha nome, título, ou uma ideia definida. Era uma cena. Mas quando reli... apaixonei-me pela mulher em silêncio e ainda sem rosto na cama. Era como se Isabel fosse de alguma maneira tão forte que, mesmo em silêncio e escondida nas linhas e entrelinhas, tivesse poder para me seduzir.

Embora contato em primeira pessoa, é essencial que cada Leitor tenha em mente isso: Isabel é o que importa. Ela é o motivo de tudo e mesmo as negativas iniciais do Valete de se distanciar, de minimizar seu relacionamento com ela são... pobres. É só prestar meia atenção e você vai perceber que ele está perdido desde o início.

Dito isso, quero também que saiba: não foi mesmo fácil escrever Velhos Segredos, mas segui adiante tendo em mente que ali estava uma personagem pela qual valia a penas destruir crenças, assassinar alcoviteiros e destronar reis. Não, se você não leu, não ache que vai encontrar um rei aqui. No muito um coronel reformado e com gostos sexuais... duvidosos.

Velhos Segredos é sim um romance policial com um pé no noir do cinema de Humphrey Bogart; corre atrás de investigar assassinatos e traições e velhas lendas de uma cidadezinha provinciana e cheia de seus preconceitos de estimação; e também coloca um pezinho no sobrenatural nunca revelado ou dito às claras. Mas acima de qualquer ideia que se possa ter de Arroio dos Perdidos – ou de seus habitantes aparentemente pacatos – é essencial e necessário que se entenda: o que importa é Isabel!

...

Leia ou releia quantas vezes quiser e, de pronto, aceito que me indiquem linhas soltas da trama. Se a encontrar... bem... faço uma promessa: coloco você para morrer num próximo livro.

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