007 Contra o Satânico Dr. No

1962: Dr. No

Novembro 2016 Continuar Lendo

Psicose, de Alfred Hitchcock

Psicose, de Alfred Hitchcock
Novembro 2016

Considerado o maior clássico de Alfred Hitchcock – e certamente o filme que o colocou na cadeira de um dos diretores mais poderosos da indústria – Psicose quase não viu as telas de cinema, não fosse pela teimosia e insistência do grande mestre do suspense na sétima arte. Hitchcock estava atrás de um novo filme, depois de Intriga Internacional, e a Paramount já havia recusado duas produções, quando um de seus assistentes apareceu com o livro de Robert Block, recém lançado em uma coleção vagabunda de romances de mistérios.

Hitchcock ordenou que Peggy Robertson, seu assistente, voltasse para a rua e adquirisse todos os exemplares que conseguisse – numa tentativa meio doidivanas de impedir que o público em geral pudesse saber mais sobre a história e seu desfecho impactante. Também adquiriu os direitos por parcos 9.500 dólares e tentou vender a produção para a Paramount: e ouviu um sonoro NÃO! A história era escabrosa demais para os padrões da indústria do entretenimento. Com a recusa, o diretor tentou baixar os custos, sugerindo filmar em preto e branco e com uma equipe barata – a de sua produtora Shamley, responsável por seus programas de televisão: recebeu um novo NÃO!

Resoluto, Hitchcock resolveu bancar sozinho o projeto, filmando nos estúdios da Universal e deixando para a Paramount apenas a distribuição do filme – mas teve também a ideia de trocar o habitual salário dos diretores por uma gorda participação nas cópias que seriam distribuídas. Montou sua equipe barata e um elenco de desconhecidos – exceto por Janet Leigh, que depois de A Marca da Maldade, de Orson Wells, fora levada à categoria de estrela, protagonizando filmes importantes com Tony Curtis, Kirk Douglas, Dean Martins, Chalrton Heston...

Anthony Perkins também não era um nome apagado em 1960, já tendo concorrido ao Oscar de ator coadjuvante em 1957, mas seu salário cabia confortavelmente no orçamento enxuto de Psicose, não impactando na narrativa da história que Hitchcock queria levar ao público. Para despistar até mesmo os profissionais de cinema da época – além da imprensa e do público – o diretor chegou a mencionar que estava contratando uma atriz para fazer o papel da Senhora Bates, tendo recebido vários pedidos de teste.

Filmado em preto e branco (por conta dos custos, mas também porque o diretor tinha medo de chocar demais o público com a sangrenta cena do chuveiro), Psicose ficou pronto e Hitchcock quase desistiu dele, porque o resultado final não o agradou: achou que seu filme acabaria sendo exibido apenas em cinemas de quinta categoria, um ou outro drive in vagabundo e salas sujas e mal faladas. Entregou a cópia final para que Bernard Herrmann fizesse a trilha sonora e teria pensado num clima entre o jazz e o sutil para pontuar a projeção. Herrmann, entretanto, entregou a peça que faltava ao filme, para torná-lo grandioso e impactante como Hitchcock previa. A música tema da morte de Marion Crane no chuveiro, pontuada como os cortes da faca com que ela é atacada grotescamente, como que arranhando os ouvidos da plateia, pode ser ouvida até hoje, sem que se precise fechar os olhos para imaginar a cena; como gritos agudos representando uma morte violenta e enervante.

A Paramount lançou o filme cheia de receios e a crítica não ajudou, considerando o filme grotescamente violento e obsceno. As cenas em que a personagem de Janet Leigh aparece de sutiã foram consideradas um ataque despudorado e sua morte no chuveiro chegou a ser exaustivamente examinada em busca de um mamilo ou qualquer outro indício de que o filme deveria ser censurado. Nestas cenas, a atriz foi substituída por uma dublê de corpo que apareceria nua, numa ducha, na capa da Playboy, a modelo Marli Renfro.

A Playboy com a modelo Marli Renfro, que serviu como dublê de corpo para Janet Leigh na cena do chuveiro.

O público, por outro lado... amou a história crua e detalhadamente bem contada pelo mestre Hitchcock, inundando os bolsos do diretor com a distribuição de cópias e mais cópias país a fora, mundo a fora. Psicose tornou-se um sucesso e até os críticos reviram suas posições, transformando a história do psicótico Norman Bates num clássico intocável, irreparável, absoluto.

Janet Leigh é a secretária Marion Crane, que dá um desfalque de U$ 40,000 em seu patrão e foge da cidade para encontrar seu amante. Ela acaba parando num motel barato, de beira de estrada, gerenciado pelo simpático e aparentemente inofensivo Norman Bates, que cuida também de sua mãe inválida e opressora. Bastam algumas cenas, enquanto Marion come um sanduiche preparado pelo rapaz, para entender que há algo de errado com ele. Pela metade do filme, temos a icônica cena em que Marion é assassinada no chuveiro – supostamente pela mãe de Norman. A estrutura pouco usual do filme, que traz o impacto de uma reviravolta brutal no meio de uma história nervosa e bem delineada (a de Marion furtando seu patrão e tentando fugir, lidando com suas culpas e medos) seria repetida outras vezes no cinema, em outras situações e em filmes que reverenciaram Hitchcock com detalhes e cenas à beira da cópia – como o ótimo Vestida Para Matar, de Brian De Palma. O desfecho da história, por sua vez, traz uma segunda grita contra o ideário do público, que já chega ao ponto a odiar a mãe de Norman quando seu cadáver é mostrado a todos na cena em que Lila Crane (Vera Miles, que interpreta a irmã de Marion, que parte em sua busca depois que ela desaparece) desce ao porão da assustadora Mansão Bates.

Janet Leigh e John Gavin, que faz seu amante Sam Loomis. Antes de cometer o desfalque em seu patrão, ela aparece em cena com um sutiã e bolsa brancas. Mais tarde, depois de cometer o crime, suas roupas de baixo e bolsa são pretas.

A história escrita por Robert Boch descrevia um Norman Bates baixinho, gordo, asqueroso, mas Hitchcock mudou isso, impulsionando o impacto de um psicótico assassino que se veste com as roupas de sua mãe para defender um amor doentio e opressor, violento e cruel a ponto de fazer com que suas personalidades se dissociem e se digladiem dentro de um corpo pálido e trêmulo, perdido, sombrio. O escritor havia se baseado na história de Edward Gein, um fazendeiro perturbado do Wisconsin que passara a infância com uma mãe opressora, doentiamente religiosa e cruel, que o criara com o irmão chamando-os de fracassados e pecadores, alertando-os contra as sujeiras do mundo e a vulgaridade das mulheres. O irmão de Ed seria encontrado morto numa tentativa de apagar um incêndio na fazenda em que viviam, com hematomas na nuca, supostamente acometido de um ataque cardíaco. Sua mãe, Augusta, sofreu dois derrames e morreu, deixando o solitário Ed às voltas com sua insanidade. Tornou-se um ladrão de tumbas e, quando foi preso, em sua casa foram encontrados mobiliários revestidos de carne humana, cabeças e genitálias de femininas enfeitando paredes e vasos, colares de mamilos... e uma roupa de mulher costurada com couro feminino.

Edward Gein inspirou Norman Bates de Psicose, Leatherface de O Massacre da Serra Elétrica e o Buffalo Bill de O Silêncio dos Inocentes.

Edward Gein inspirou Norman Bates de Psicose, Leatherface de O Massacre da Serra Elétrica e o Buffalo Bill de O Silêncio dos Inocentes.

Ed Gein nunca foi considerado um Serial Killer, como o Norman Bates de Anthony Perkins é retratado em Psicose: Ed confessou ter matado apenas duas mulheres, sendo sua coleção particular de relíquias grotescas o resultado de suas incursões aos cemitérios da região. Foi catalogado como psicótico carniceiro e viveu em instituições para doentes mentais até sua morte em 1984, tendo inspirado outros dois personagens sinistros do cinema de suspense e horror, o tosco Leatherface de O Massacre da Serra Elétrica, e o assassino serial Jame "Buffalo Bill" Gump, vivido por Ted Levine em O Silêncio dos Inocentes.

Filmes



Os meninos que me ensinaram a ler

Os meninos que me ensinaram a ler
Novembro 2016

Aprendi a gostar de histórias com uma senhora baixinha e ranzinza que passava as tardes entre a mesa de madeira da cozinha e uma velha Singer barulhenta no quartinho de costura; esticando os doces que passava horas mexendo com uma colher de pau e muito esforço no fogão de quatro bocas ou costurando tapetes e colchas de retalhos naquela máquina antiga, escura. Eram sempre as mesmas histórias, mas eu não me cansava delas. E quando minha avó terminava uma, eu já sabia qual seria a próxima... Ela reclamava um pouco por ficar sempre repetindo o anedotário para o incansável moleque de seu filho mais velho, mas passava de um causo a outro com a desenvoltura dos melhores contadores de histórias.

Minha segunda lembrança é de minha mãe deitada no sofá da sala pequena de nossa casa (vizinha à dos meus avós) com um estranho pacote feito de folhas nas mãos. Ela vivia entretida e mergulhada neles. Eram uns caderno que não tinham folhas em branco para desenhar, porque já vinham com... coisas impressas neles. Eram letras. Dezenas delas. Centenas. Milhares! E ela ficava lá, por horas, passando páginas e devorando palavras.

Não levou muito tempo para eu perceber que a mágica que me fascinava nas histórias que minha avó contava... essa magia fantástica estava dentro daqueles pacotes que tiravam minha mãe do mundo real e a levavam por minutos seguidos ao sofá da sala – sua mente vagando por outros mundos desconhecidos, aventurescos, fantásticos!

Aqueles pacotes eram... LIVROS! E todas as histórias do mundo cabiam neles!

Acho que aprendi a ler na segunda série, mas não me recordo de quando foi que me aventurei a... tentar vencer um livro! Eles eram quase inalcançáveis para quem ainda juntava letras e tentava acompanhar um gibi do Aranha inteiro. Mas um dia os meninos da turma receberam a incumbência de lutar naquela primeira batalha. As meninas tinham sua tarefa, mas eu jamais vou me lembrar de qual era. Quanto à nossa...

Os meninos da rua Paulo

Minha mãe comprou aquele exemplar até pequeno (visto hoje, guardado ali entre os enormes volumes da estante) de Os Meninos da Rua Paulo e eu o achei enoooorme! Tínhamos que ler nas férias. E eu achava que levaria um ano inteiro para conseguir terminar. Ledo engano.

Mergulhado nas aventuras e dramas dos garotos pobres da Hungria, inseridos num contexto histórico que fascina e apavora as crianças com a guerra, com o descaso e abandono dos adultos, caí de joelhos diante do meu primeiro grande herói juvenil, o bravo e trágico Ernesto Nemecsek. Publicado originalmente em 1907, escrito pelo jornalista Ferenc Molnár, ainda guardo na estante o velho exemplar traduzido por Paulo Rónai (pai da jornalista Cora Rónai), comprado por minha mãe e que tanto me assustou e fascinou há mais de trinta anos.

O final trágico e belo encontra eco em obras recentes que tratam de assuntos semelhantes (o sacrifício da inocência infantil diante da barbárie e da insensibilidade do mundo adulto, das guerras adultas, da miséria humana...), mas nenhum livro, jamais, conseguiu ser como Os Meninos da Rua Paulo. Não para mim: foi minha iniciação à mágica das histórias contadas por minha avó e lidas em silêncio por minha mãe. Foi quando tomei consciência de que aquela paixão era para sempre e que eu queria mais do que ser apenas o espectador dos ilusionistas no palco.

Os Meninos da Rua Paulo me fizeram um apaixonado pelo ofício!

Livros



Carregar mais postagens